Crítica de rei leão


Em 1995, o pioneiro Toy Story chegou para popularizar de uma vez por todas a animação computadorizada. Ainda é cedo para afirmar que o mesmo acontecerá com a proposta fotorrealista deste novo O Rei Leão, mas desde já é possível afirmar que, assim como o longa dirigido por John Lasseter no século passado, o novo filme de Jon Favreau é, também, um divisor de águas.

Vendido como um live-action sem humanos, o novo O Rei Leão bebe diretamente da animação clássica para surpreender pelo aspecto técnico. De uma exuberância visual impressionante, é incrível acompanhar tantos e variados animais recriados nos mínimos detalhes, de forma que o espectador não tenha a sensação de ver em cena uma nova animação, potencializada com o que há de mais moderno nos efeitos especiais. Por mais que tenha ensaiado tal proposta em Mogli – O Menino Lobo, Favreau aqui encara um desafio maior por não ter a presença humana como fio condutor da narrativa, precisando demonstrar as necessárias emoções decorrentes da história apenas através dos animais. Este, no fim das contas, é também seu calcanhar de Aquiles.

Há no fotorrealismo uma limitação inerente não à tecnologia, mas à própria biologia: a impossibilidade de criar personagens tão expressivos, sob o risco de perder o princípio básico (e buscado) da veracidade. Sob a sombra constante da animação clássica, que contava com personagens extremamente carismáticos, tal comparação prejudica a nova versão não exatamente por ser inferior, por mais que seja, mas pela proposta diferente. Aqui, as emoções são trazidas através de sutilezas: um realçar de sobrancelha, um franzir de testa, um leve movimento de cabeça. Detalhes que, uma vez mais, impressionam pelo apuro técnico mas, inevitavelmente, trazem também uma certa frieza.

Neste aspecto, é curioso notar como este novo filme dialoga, o tempo todo, com a animação clássica. Se a comparação lhe é prejudicial pelo aspecto da emoção e também ao charme intrínseco à animação 2D, em várias cenas a lembrança do original auxilia pela nostalgia. É como se o jogo já estivesse ganho, graças aos momentos tão conhecidos que vêm à memória de imediato – uma tática que tem sido explorada com habilidade pelos live-actions de animações clássicas da Disney, diga-se de passagem. Como não abrir um sorriso ao ouvir “Hakuna Matata”, por exemplo? Ou antever o peso do que está para acontecer quando Simba se vê amedrontado em meio a um estouro de animais? Impossível.

Também por isso, são mínimas as mudanças feitas neste filme em relação ao original, por mais que haja 29 minutos a mais. As mais relevantes são a existência de uma líder das hienas e a aparição do cajado de Rafiki, no mais o tempo extra é gasto em sequências visuais mais alongadas. Não por acaso, Favreau busca enquadramentos que a todo instante remetam à animação clássica, em busca do saudosismo dos fãs. A única surpresa de fato vem através da ótima brincadeira com “Be Our Guest”, icônica canção de A Bela e a Fera.

Outro ponto que precisa ser ressaltado é em relação ao elenco de vozes desta nova versão. Se a escolha de James Earl Jones como Mufasa de início espanta os fãs de Star Wars graças ao inconfundível vozeirão de Darth Vader, é também inegável o peso que o ator dá ao personagem. O garoto JD McCrary também se sai muito bem como o jovem Simba, enquanto John Oliver surpreende pelo inusitado sotaque britânico dado a Zazu. Quem também brilha intensamente é Seth Rogen como Pumba, associando seu estilo próprio ao tom bem-humorado do personagem. Já a dupla Donald Glover e Beyoncé destoa dos demais: enquanto ele soa um tanto quanto exagerado em certos momentos, especialmente em suas cenas iniciais, a cantriz surge sem brilho, a não ser na boa versão de “Can You Feel the Love Tonight”.

Por mais que sua existência tenha muito a ver com o potencial mercadológico nas bilheterias, fato é que a nova versão de O Rei Leão traz algo novo ao cinema, não só pela estética mas também pela narrativa. É preciso, no entanto, saber situar cada filme: por mais que este não chegue perto da animação clássica, há nele uma beleza em torno das saídas encontradas ao buscar expressões nos animais, associada aos próprios movimentos deles, que torna este novo filme dirigido por Jon Favreau algo único. Ao menos por enquanto.

 

 

 

Postagem:Agatha Costa

Revisão: Bruna mello

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