Crítica de Aladdin


Desde que impôs a si mesma a tarefa de adaptar em live-action seus sucessos da animação, a Disney tem dividido estas novas versões em duas categorias: as que reinventam o material original (MalévolaMeu Amigo o DragãoDumbo) e as que são extremamente fiéis à história já conhecida (Cinderela, Mogli, A Bela e a Fera). Por mais que traga uma breve (e importante) mudança, Aladdin está mais para o segundo grupo – o que é uma ótima notícia!

Afinal de contas, Aladdin é uma das animações mais icônicas dentre as lançadas pelo estúdio do Mickey nas últimas décadas, tanto pela trilha sonora composta por Alan Menken - de volta nesta versão – quanto pelo carisma de seus personagens, em especial o Gênio dublado por Robin Williams. Aqui, o grande desafio é como recriar tal ambientação, ao mesmo tempo lúdica e étnica, respeitando não só o material original como a própria representatividade do elenco. A cargo de tal esforço, foi convocado um verdadeiro estranho no ninho: o diretor Guy Ritchie, mais conhecido pelo humor cínico em filmes um tanto quanto violentos. Para surpresa geral, deu certo!

Muito rapidamente, é possível notar que Ritchie se desvencilhou de seus antigos cacoetes como cineasta para se entregar a uma proposta já embalada e pré-definida. De início absolutamente idêntico à animação, seja no preâmbulo no barco ou mesmo em Agrabah, impressiona a excelência técnica desta produção não só em recriar movimentos de câmera mas, especialmente, na construção da cidade-natal desta história. A Agrabah vista em cena é de uma exuberância visual impressionante, seja pela direção de arte ou pelo figurino, desde já fortes candidatos ao próximo Oscar. Pelo detalhismo lembra o trabalho feito em outra adaptação em live-action da Disney, A Bela e a Fera, mesmo sem trazer tanta opulência.

Com o espectador já imerso em um ambiente facilmente reconhecível, surge então o grande trunfo do longa-metragem: Mena Massoud. Não que o intérprete do personagem-título seja um grande ator, mas sua caracterização como o ladrão de bom coração com um quê de canastrão é a personificação do Aladdin da animação – ponto para Ritchie e os responsáveis pela seleção de elenco, em uma escolha precisa. Se Naomi Scott é uma princesa Jasmine correta e Will Smithdiverte interpretando a si mesmo em versão azulada e superpoderosa, cabe a Massoud o brilho maior do elenco. Também porque Marwan Kenzari entrega um Jafar vilanesco e caricatural, sem qualquer profundidade.

Por mais que a produção caprichada impressione em muitos momentos e a bela trilha sonora mais uma vez ajude a conduzir a aventura, Aladdin também tem seus problemas. Um deles é quando Will Smith surge azulado e etéreo, nas breves cenas em que conversa com o protagonista: é inevitável a estranheza diante daquele ser cujo peitoral exagerado não combina com o restante do corpo, transmitindo a sensação de grotesco ao invés do amigável – que, no fim das contas, vem mais devido ao carisma do ator. Ainda assim, o Gênio desta versão faz jus ao ícone estabelecido por Robin Williams, seja pela histeria bem-humorada ou mesmo pelos cacos inseridos pelo ator, especialmente na adição de trechos de hip-hop numa das canções. Smith está leve em cena como há muito não se vê, o que ajuda – e muito! - ao longa-metragem.

Outro fator é em relação a Jasmine, a única personagem que sofre alterações em relação à versão animada. Agora mais empoderada em um interessante (e apropriado) subtexto envolvendo a posição da mulher perante o núcleo de poder, cabe a Naomi Scott apresentar a única canção original da trilha sonora, a boa “Speechless”. O problema é a forma como a música é inserida na narrativa, interrompendo-a por completo para ser apresentada em tom de videoclipe. Por mais que faça sentido pelo momento em que surge, soa pouco orgânica dentro do longa-metragem como um todo.

Bastante divertido, o novo Aladdin supera o desafio de reverenciar o clássico ao praticamente reproduzi-lo, contando para tanto com as benesses do orçamento robusto e a excelência dos efeitos especiais na atualidade. Ainda assim, Ritchie merece créditos pela boa condução do elenco, de forma a valorizar os momentos marcantes da animação de forma a torná-los mais uma vez envolventes, por mais que não sejam novidade. Bebendo diretamente da fonte dos grandes musicais de Bollywood, especialmente na carnavalesca sequência em que o príncipe Ali chega a Agrabah, Aladdin brilha pela suntuosidade técnica e também pela atualização da história, aproveitando a oportunidade para enviar mais uma mensagem sobre a valorização das mulheres – algo que tem se tornado comum na Disney, vide Moana, Frozen, A Bela e a Fera, Capitã Marvel e Star Wars - O Despertar da Força, todos lançados nos últimos anos.

 

Revisão: Bruna de Mello

Autor/Vídeo/Postagem: Agatha Costa

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